e talvez isso me faça melhor. Talvez me faça um alguém menos tenso, menos contido. Menos prisioneiro. Talvez essas letras sirvam como um subterfúgio, uma válvula de escape, tal qual panela de pressão. Talvez eu não saiba para quê escrevo, para quem ou quais são as minhas intenções. Todas essas burocracias de preenchimento de ficha são dispensáveis: escrevo, logo existo. Tudo está ali, basta olhar com os olhos certos e ter paciência. Buscando nos lugares certos, encontrará todas as faces, todas as caras dadas a tapas, todas essas pequenas coisinhas que fazem cada um ser cada um, e não o vizinho.
Ali estarão todas as minúcias de minhas memórias, e descrevê-las cientificamente seria um genocídio de lembranças indefinidas: aquelas em que restam apenas direção e sentido. Nada de módulo, nada de valor preciso, nada de nada. Nada é de graça. Não é assim que a memória funciona.
Cada palavra traz consigo uma montanha de significância. Signifinfância, signifiscência. Signifidulto, talvez mais tarde. Elas não são todas bonitas, limpas e cuidadas, nem sempre foram guardadas num local brilhante e aquecido. Há palavras feias, palavras de-te-ri-o-ra-das, palavras fedidas. Palavras em molambos. Formam andrajos, que carrego com um misto de vergonha e orgulho.
Cada naco de promessa que escrevo se desliga de mim na primeira oportunidade. Não há cordão umbilical, e sim uma tomada. Eles vêm, ficam plenos de energia e esquecem de pagar a conta. Vão caminhando, independentes, granjeando sentido por onde passam. Não há uma dura poesia concreta sequer nessas esquinas. Há mato, há gente, há amores e decepções, rescendem a seu aroma rígido urbano. E então retornam, implorando por mais. Volta e meia, esses passeios duram dias, semanas. Espero pacientemente por cada um, dou um banho, uma polida, penteio suas franjas rebeldes e arrumo suas mochilas.
Virou natural, não mesmice. Afinal, escrevo.
quarta-feira, 10 de agosto de 2011
sábado, 23 de julho de 2011
post
“Barcelona, 15 de agosto de 1938.
Querida Penélope,
Escrevo-lhe depois de tanto tempo para relatar minhas mais recentes peripécias nesta cidade de lixívia e carvão. Melhor dizendo, lixívia, carvão e pólvora. Minhas noites são regadas a desassossego, assim como a de todos os desafortunados que possuem Barcelona como morada, aguardando a cada passo um novo confronto. Só fazemos esperar, e que isso traga um melhor futuro.
Aqui, até as pombas que rondam as ramblas são incrédulas. O povo está confuso. Seu estado normal é o ébrio. Outro dia, um dos poucos com céu azul e sol, quando se podem ver crianças e velhos andando pelas praças e bondes, topei com uma lojinha qualquer de esquina. Sua dona, uma senhorinha de olhos caídos e vestes acinzentadas pelo medo, olhava para o longe, forçando a vista. Indaguei-a acerca de uma blusa xadrez. Não tinha idade para ser surda.
- Com licença, a senhora tem blusa xadrez no estoque?
- O quê? Cacharrel? – responde a tal.
- Blusa xadrez, com padrão xadrez, linhas cruzadas... Conhece?
- Como? Gola em V?
E em seguida mostrou-me uma infinidade de moletons e malhas com decote em V. Logo se notam os efeitos do caos que a acomete.
Também não ando lá muito veemente. Tenho saído pouco, meus almoços se reduzem a um café com leite (obtido, e digo, às custas dos vizinhos de caixa postal...) e a cesta de lixo nunca esteve tão abarrotada de papéis. Amassados, rasgados, por vezes inteiros... Talvez sintoma de arrependimento, e uma esperança tardia de que todos esses personagens desperdiçados retornem das cinzas.
Há algumas semanas dom Agustín, o relojoeiro, me ofereceu um passeio ao parque. Lembrando de seus antecedentes tendendo à homossexualidade, recusei. Creio que me arrependo, poderia ao menos ter respirado um pouco de ar puro, e me libertado por alguns instantes dessa atmosfera de tabaco e tristeza.
Procuro ler, sempre que possível, os jornais da manhã. Acontece que o dinheiro anda curto, e ninguém precisa ler as notícias da guerra: basta abrir a janela.
Recebi uma caneta tinteiro de prata. Chegou pelo correio, sem remetente. Acreditei ter sido sua, mas a encomenda era nacional. Reluz ao mínimo polimento. Não a mereço, minhas palavras refletem apenas a negra poeira das ruas e os preteridos. Além disso, me falta a tinta. Enquanto esta não vem, contento-me com os tipos regulares da máquina.
Da última vez que acreditei ter chegado a um resultado bom, senão ao menos satisfatório, descobri que a tal história já existia. Ou estou ficando desmemoriado, ou sou um lugar-comum. De qualquer forma, peço para lê-la, e que fique registrada a minha incapacidade para com as palavras.
‘Enquanto escrevo, um homenzinho me observa pela janela, do outro lado da rua. Seu rosto está encoberto pela sombra, e só o que se vê é a luz queimante da brasa de um cigarro. Certamente que usa luvas. Daqui, enxergo seus dedos se dirigindo calmamente à sua boca, e novamente pendendo ao chão. Esse ritual sereno se repete indefinidamente: não se cansa. Se prostrou estrategicamente embaixo do poste de iluminação, de forma que dele nada se vê, abaixo do chapéu. Algo entre detetive e zorro, um quase personagem fictício, etéreo, onírico. Joga a ponta no chão e a esmaga com o que lembra o sapato da minha avó: preto, pequeno demais e com uma ponteira branca ridícula.
Ele sabe que o observo, e creio que é isto que o motiva a permanecer ali. Agita uma nota de algum valor e me chama. Não vou. Volto meu olhar para a estante, a poltrona, a porta da cozinha. Esta última me convida, e parto para preparar um café, na esperança de que, nesse meio tempo, o tal já tenha desistido e deixado de ser teimoso.
A lua entrando pela janela de frente à pia se torna uma visão estonteante. Ao retornar, a intuição se confirma: a figura continua a postos. Tomado de uma raiva subido, abro a janela e grito algumas palavras nada finas. Não obtenho nada em troca, exceto os berros da vizinha debaixo.
Cogito chamar a polícia, mas já estou metido em dívidas demais. Resolvo deixar como está. Desta vez, eu sou quem desiste.
Já sabia o que ele queria obter desde o início. O sujeito não me era estranho: o homem do esbarrão no bonde, o do jornal no café, o dos papéis no banco. Atiro pela janela, em sua direção, estas últimas palavras. Caio na própria poltrona, vencido pelo cansaço. ’
É isso. Só não espalhe aos quatro ventos suas críticas (por assim dizer, protecionistas), e estaremos em paz.
Arrumei um emprego como pianista num bordel, quase todas as noites. O vizinho da frente me julga o homem mais sortudo do mundo, embora não seja bem assim. As moças ali são tão carentes quanto os homens que as arrastam para os lençóis.
Espero continuar aqui, talvez até o fim desses tempos. Não sei. Mercedes lhe manda lembranças, e espera poder te ver logo. Eu também espero.
Um abraço,
Miquel “
Miquel não toca piano, nunca viu a guerra nem, tampouco, Barcelona. Penélope? Somente um sonho.
segunda-feira, 4 de julho de 2011
Suco de maçã com sal à uma da manhã
Sentia gosto de sangue. A língua que insistia em raspar o ferro solto do aparelho clamava por piedade, e talvez um tantinho de desculpas. Tornara-se insensível aos pouquinhos, a cada pequeno arranhão. Depois de um tempo, só o gosto de sangue. O gosto envolvente e repugnante de sangue. E nostálgico.
Os minutos passavam tal qual água em torneira quase fechada: de gota em gota, lento, mas de repente já se foram muitos. Minutos desanimados, minutos esperançosos por uma resposta, por uma carta no correio, minutos saltitantes que dançavam alegremente sob o sol, no jardim. O ritmo em que inspirava e expirava o ar não condizia com o mínimo necessário, nem com o mínimo esperado, ou o mínimo mesmo. Mas não havia problema algum. Talvez só falta de açúcar.
Essa sensação, esse sentimento vazio, esses dias nublados e o vento assobiando na janela, e as noites frias e seus cobertores compunham o cenário perfeito, e agradavam. Oh, agradavam... Porém não satisfaziam a fome de tempo não-cronológico: tempos esses de acontecimentos. Não era Ana Terra, afinal. Seus ventos não traziam novidades.
O breve toque do telefone mostra a desistência do outro lado da linha e o desapontamento deste lado, eternamente à espera. Um livro aberto em qualquer página e jogado sobre a mesa, um filme aguardando ser visto, milhões de pequenas dicas espalhadas pelo espelho. Uma espera dramática de carteirinha.
Ora é um pé que dormiu, ora é a coluna de velha doendo, ora a dor no pulso que não gosta de passar. Talvez um pensamento extinto, ou mesmo aquele velho rancor guardado no fundo de suas caixinhas de sonhos. Quando era pequena, sua mãe dissera para guardar seus sonhos em caixinhas, bem organizados, para poder sempre lembrar deles. Ou pelo menos não os deixar empoeirar. Criança tola, acreditara em caixinhas físicas, coloridas, cobertas de pano, lantejoula e rendas. Aos poucos ganhara maturidade suficiente para fabricar essas tais caixinhas, em pensamento.
Não sabe até hoje, porém, qual seria essa "idade madura", ou a partir de que ponto era considerada suficiente. Apenas lhe incutiram uma frase pronta e feita qualquer, e ela que se desse ao trabalho de digerir.
Pensa até mesmo em refletir sobre qualquer coisa. Algum assunto que não tenha opinião formada. Mas a variedade é tão grande que desiste, perde o entusiasmo.
O navio dos rolês zarpou do porto há eras.
Assim como Calvin, acreditava que os dias de verão foram feitos pra fazer alguma coisa, mesmo se for nada. Especialmente se for nada.
Era inverno, mas tudo bem.
"(...) E soprava aquela brisa gelada daquela manhã de agosto..."
Os minutos passavam tal qual água em torneira quase fechada: de gota em gota, lento, mas de repente já se foram muitos. Minutos desanimados, minutos esperançosos por uma resposta, por uma carta no correio, minutos saltitantes que dançavam alegremente sob o sol, no jardim. O ritmo em que inspirava e expirava o ar não condizia com o mínimo necessário, nem com o mínimo esperado, ou o mínimo mesmo. Mas não havia problema algum. Talvez só falta de açúcar.
Essa sensação, esse sentimento vazio, esses dias nublados e o vento assobiando na janela, e as noites frias e seus cobertores compunham o cenário perfeito, e agradavam. Oh, agradavam... Porém não satisfaziam a fome de tempo não-cronológico: tempos esses de acontecimentos. Não era Ana Terra, afinal. Seus ventos não traziam novidades.
O breve toque do telefone mostra a desistência do outro lado da linha e o desapontamento deste lado, eternamente à espera. Um livro aberto em qualquer página e jogado sobre a mesa, um filme aguardando ser visto, milhões de pequenas dicas espalhadas pelo espelho. Uma espera dramática de carteirinha.
Ora é um pé que dormiu, ora é a coluna de velha doendo, ora a dor no pulso que não gosta de passar. Talvez um pensamento extinto, ou mesmo aquele velho rancor guardado no fundo de suas caixinhas de sonhos. Quando era pequena, sua mãe dissera para guardar seus sonhos em caixinhas, bem organizados, para poder sempre lembrar deles. Ou pelo menos não os deixar empoeirar. Criança tola, acreditara em caixinhas físicas, coloridas, cobertas de pano, lantejoula e rendas. Aos poucos ganhara maturidade suficiente para fabricar essas tais caixinhas, em pensamento.
Não sabe até hoje, porém, qual seria essa "idade madura", ou a partir de que ponto era considerada suficiente. Apenas lhe incutiram uma frase pronta e feita qualquer, e ela que se desse ao trabalho de digerir.
Pensa até mesmo em refletir sobre qualquer coisa. Algum assunto que não tenha opinião formada. Mas a variedade é tão grande que desiste, perde o entusiasmo.
O navio dos rolês zarpou do porto há eras.
Assim como Calvin, acreditava que os dias de verão foram feitos pra fazer alguma coisa, mesmo se for nada. Especialmente se for nada.
Era inverno, mas tudo bem.
"(...) E soprava aquela brisa gelada daquela manhã de agosto..."
quinta-feira, 30 de junho de 2011
Asta-i drept, pe Dumnezeu.
Ele vinha vindo, assim, de mansinho. Olhava prum lado, pro outro, de longe. Prosseguia alguns passos incertos, seus olhos rastreavam o ambiente e, oh, aqui estava, bom dia! Sentava do lado, falava sobre o tempo, goiabas estragadas, a puta da esquina. Puxava um assunto e, se o outro entrasse na brincadeira, continuava. Sentava como que se levantando. Talvez por isso não fizesse tanta falta. Era ininterruptamente efêmero.
O tempo, para ele, não era. Já foi, mas não será. Vai por inércia. As lâmpadas do seu quarto queimaram há décadas. Poderiam ser somente alguns dias, mas ela continuava queimada.Seu papo taciturno talvez entediasse. Gastava silêncios como um ofegante: aos montes. Selecionava as melhores palavras e as distribuía a conta-gotas.
Carregava um peso nas costas e outro na consciência. Cobria os braços de casacos como seu id de muros. Cobria os negros fios de cabelo os olhos igualmente negros, e nos deixava na dúvida quanto à sua veracidade.
Ganhava inúmeros presentes em pensamento, mas jamais os retribuía. Afinal, eram irreais.
Não garantia seu futuro, embora próximo e necessário; porém era, por si só, um poço do passado.
Lento, seguia caminhando, um pé na frente do outro, um passo de cada vez. Ouvia Chico e derramava baboseiras românticas. Dispersava-se em ideias, transbordava dinâmica. Acabou a música e já não é mais o mesmo: laconismo.
Não era comum, tampouco absurdo. Sabia ler, escrever, falar, respirar e ouvir. Nessa ordem. Não era humano nem desnaturado. Arte-final não era, mas o esboço tinha ficado para trás. Poderia bem estar em extinção. É, talvez estivesse.
O tempo, para ele, não era. Já foi, mas não será. Vai por inércia. As lâmpadas do seu quarto queimaram há décadas. Poderiam ser somente alguns dias, mas ela continuava queimada.Seu papo taciturno talvez entediasse. Gastava silêncios como um ofegante: aos montes. Selecionava as melhores palavras e as distribuía a conta-gotas.
Carregava um peso nas costas e outro na consciência. Cobria os braços de casacos como seu id de muros. Cobria os negros fios de cabelo os olhos igualmente negros, e nos deixava na dúvida quanto à sua veracidade.
Ganhava inúmeros presentes em pensamento, mas jamais os retribuía. Afinal, eram irreais.
Não garantia seu futuro, embora próximo e necessário; porém era, por si só, um poço do passado.
Lento, seguia caminhando, um pé na frente do outro, um passo de cada vez. Ouvia Chico e derramava baboseiras românticas. Dispersava-se em ideias, transbordava dinâmica. Acabou a música e já não é mais o mesmo: laconismo.
Não era comum, tampouco absurdo. Sabia ler, escrever, falar, respirar e ouvir. Nessa ordem. Não era humano nem desnaturado. Arte-final não era, mas o esboço tinha ficado para trás. Poderia bem estar em extinção. É, talvez estivesse.
terça-feira, 14 de junho de 2011
Mareio
- Tá frio.
- É, tá frio.
- Não quer ir lá pra dentro?
- Não, aqui tá bom.
Batia forte na cara, a brisa que vinha. O frio ardia e queimava mais ainda as bochechas do pequeno.
Sentado na proa, recebia o cheiro salgado de frente, peitava o cheiro salgado daqueles mares. Com uma coragem nunca vista, desbravava caminhos inexplorados, enfrentava monstros aterradores e acordava com qualquer balanço mais vigoroso. O pequeno gostava daquilo.
Passou a mão pelo lenço na cabeça e suspirou. Lenço não fica bem, pensou a mãe. Iria já trocar por um elástico qualquer, mas parou no meio dos passos.
Um estrondo.
Apenas mais uma panela que caiu, apenas mais uma panela que caiu com o mareio, apenas mais uma.
Mas o Destino gostava de supreender.
Dessa vez, o magrelo cãozinho vira-lata resolvera derrubar a cadeira do comandante.
Que não mais ali estava.
- É, tá frio.
- Não quer ir lá pra dentro?
- Não, aqui tá bom.
Batia forte na cara, a brisa que vinha. O frio ardia e queimava mais ainda as bochechas do pequeno.
Sentado na proa, recebia o cheiro salgado de frente, peitava o cheiro salgado daqueles mares. Com uma coragem nunca vista, desbravava caminhos inexplorados, enfrentava monstros aterradores e acordava com qualquer balanço mais vigoroso. O pequeno gostava daquilo.
Passou a mão pelo lenço na cabeça e suspirou. Lenço não fica bem, pensou a mãe. Iria já trocar por um elástico qualquer, mas parou no meio dos passos.
Um estrondo.
Apenas mais uma panela que caiu, apenas mais uma panela que caiu com o mareio, apenas mais uma.
Mas o Destino gostava de supreender.
Dessa vez, o magrelo cãozinho vira-lata resolvera derrubar a cadeira do comandante.
Que não mais ali estava.
segunda-feira, 13 de junho de 2011
May be
sábado, 11 de junho de 2011
understanding
Passou o palhaço, o elefante, fumaça, mil luzes, o coelho na cartola, o dia. O rosto redondo e sorridente do palhaço, redondo, sorridente e cruel, redondo, sorridente, cruel e frio. Aceita uma flor? Tchá, água na cara, rá! Não tem graça, mamãe, vamos embora, não teve graça, seu guarda. Mas as luzes, e as palmas, e o calor abafado, os amendoins massudos, aquele gosto de desassossego, ah, aquelas luzes... Levanta-se e se agarra àquela luz, vai, garoto, suba no palco! Agora é sua vez...
- Garoto, vamos, colabore, eu ganho pouco pra fechar esse lugar, 'cê vai deixar meu filho com fome.
Fome, fome, fome, dinheiro, a noite, nada. O mágico o conduziu por entre as belas dançarinas, passou a mão na juba do leão, pôs o pé no primeiro degrau da longa subida rumo ao trapézio. Vai, garoto, tu consegue! Olha pra trás e encontra uma lágrima, duas mãos unidas, unhas roídas, desespero e um grito, vai! Quer que eu escolha outro garoto?
- Vamos, onde está sua mãe?
Ali, ali torcendo por mim, ela não sabe o que fazer, se descabela, sua mão topa com uma parede invisível e dali pra frente, nada mais é dela, nada mais é previsível, nada mais existe. É seu filho, será meu filho, será, meu filho? Mais um degrau, a platéia vai ao delírio, olha o garoto, meu filho! Olha mãe, quero ser igual a ele! Compre amendoins pra mim também? Não, não pode subir! Desçam daí, vocês dois! A primeira fileira se acalma, os tambores rufam, algumas notas numa espécie de trompete desafinado marcam o terceiro degrau. O garoto olha pra cima e força um sorriso. É alto. De repente a escada se transfigura numa pilha, vira prum lado, pro outro, bambeia. Mas vamos, olha lá, a garota te espera e te ensina a pular, é uma delícia, veja com seus próprios olhos! E já está a poucos instantes dali. É festa, é choro, é riso, é a suposta estabilidade, é o zumbido incessante nos ouvidos e o bêbado tropeçando a cada paralelepípedo.
- Tome um brinquedo, garoto, e saia daí.
"Zonzo de ver tambor bater pra quem é daqui, zonzo de ver tambor bater pra quem é de lá, zonzo de ver tanta menina rodopiar, lembrou de que não era pra se lembrar e zonzeou". Berra, esperneia, chora, faz birra, quer voltar, só tem sete anos, só tenho sete anos, inquieta-se, mas está quase, não tem volta. Dá a mão para a bela garota de maillot no fim da linha. Ela lhe apresenta uma barra, duas cordas e uma rede, lá embaixo, pra eventualidade de ele soltar e cair. Segura a barra, as mãos tremulam, as luzes tremulam e mais tambores rufam, quase trompetes desafinam e mães choram. Uma réstia de luz vem do furo na lona e aponta para o chão.
- Garoto, acorda!
A corda e o pulo, o chão é longe, a febre é alta, o nariz escorre muco, sangue e vida. Estanca o grito e os pulmões saem do ar, os braços jazem moles ao longo do corpo e já não suportam seu peso. Mas ele precisa.
- Pare, garoto, pare com isso!
O sorriso da moça se distancia, a música para, o negro come o canto do olho, o guarda é o leão, o leão é o palhaço, o mágico é o elefante e o elefante já não chora. A sebe rasteja e o sapo fica estático. Uma última luz, ei, quer uma flor?
- Vamos, garoto, acabou o espetáculo.
terça-feira, 31 de maio de 2011
Vai, não
- Preste atenção, garoto. Não vê o lado frágil desta tábua? Vai cair, vai cair.
- Não vou não, meus pés hão de ser firmes e meu corpo, equilibrado. Ao lado só há o nada; porque temer o nada, se não sabemos o que nele há? Temer o desconhecido é ter medo da luz do sol. E do lado da tábua.
- Tome tento, garoto. Não vê teus cadarços desamarrados? Vai cair, vai cair.
- Não vou não, meus cadarços são meros fios de corda, não têm força para me puxar ao solo. Caso enrosquem nos meus dedos e, por um momento, minha cabeça penda ao chão, logo meus braços me levantarão da queda.
- Cuidado, garoto. Não vê que há um vão nesta ponte? Vai cair, vai cair.
- Não vou não, pois só se não tivesse olhos. No caso de não o tê-los, peço ajuda e oh, lá vem a ajuda. E me tira do sufoco do não-ar-haver.
- Bote os miolos no lugar, garoto, não vê que onde está nem ao menos é ponte, é barco? Vai cair, vai cair.
- Não vou não, e sendo barco, que me leve para longe. Sendo barco, que me equilibre nas águas rasas e nas águas fundas, nas calmas e nas revoltas, e que aporte num cais seguro. Ou noutro barco. Sendo barco, que não fique, acompanhe.
segunda-feira, 23 de maio de 2011
Tennessee
O celular emitiu um bipe. Mais uma daquelas mensagens de propaganda, "envie GOL para 48600 e receba notícias da copa". A copa já passou. A rodovia vazia chama o sol no horizonte, uma saída pra uma estradinha que poderia ser de terra. Sem poeira, sem buracos, paralelepípedos acompanhando. Quase em branco e preto, aquela poderia ser uma paisagem de quase 1960, os Fuscas tinindo e um ambiente certo. Correto, estável. Vira, esquerda, direita, a casinha pitoresca no fim da estrada já se destaca, atrás o meio abandonado. Olha onde ele veio se meter. Quando recebeu a ligação, coisa de uma hora atrás, esperava estar chegando agora em um prédio qualquer no centro.
Apavora-se com o entorno da casa. Poderia estar MESMO em 1960. Reduz a velocidade, faz a curva e deixa o carro engatado. Sai cauteloso, sobe os três ou quatro degraus e toca a campainha. Uma senhora abre a porta e revela uma cena típica de uma família inglesa, o chá das cinco. Diz a que veio, não mora nenhum Peter aqui. Mil desculpas, devo ter me confundido. Vira as costas e tropeça, desorientado, até que a verdade o atinge pelas costas.
Volta e a abraça.
Apavora-se com o entorno da casa. Poderia estar MESMO em 1960. Reduz a velocidade, faz a curva e deixa o carro engatado. Sai cauteloso, sobe os três ou quatro degraus e toca a campainha. Uma senhora abre a porta e revela uma cena típica de uma família inglesa, o chá das cinco. Diz a que veio, não mora nenhum Peter aqui. Mil desculpas, devo ter me confundido. Vira as costas e tropeça, desorientado, até que a verdade o atinge pelas costas.
Volta e a abraça.
terça-feira, 3 de maio de 2011
fanteano
Vou subindo a escada, não, Abelardo, você não gasta com essas coisas, não pode, "vem cá, quer ver como se divertir essa noite?", quanto custa, vale um sapato e um saco de laranjas na venda do japonês, a escada acaba, um corredor, não, ainda dá pra voltar atrás, mas você não quer, Abelardo, ah, bem que você queria aproveitar, dois dólares e mais nada, são tudo, o dinheiro da mãe, mas sempre há dinheiro e sempre se pode pedir mais, o japonês pode dar um desconto na próxima, a avó pode mandar mais dinheiro, sempre, aquele meu pai cafajeste bem que podia aparecer, ou um qualquer, verei meu nome na capa das revistas e jornais e todos falarão de mim, ganharei dinheiro, sim dinheiro pra gastar com essas coisa, oh, não, a porta, "entre, se acomode", um quarto comum de motel, o clique da chave atrás de mim, não, Abelardo, arrombe a porta e saia correndo, volte para a sã consciência, seja corajoso, deito na cama, ela sobre mim e tua boca encosta meu pescoço, minha mão sobre teu cabelo e pensamentos, volte, Abelardo, sua mãe, Abelardo, imagine ela quando souber, você está em maus lençóis, me atiro para o outro lado da cama e me sento, me levanto como alguém que se levante em grande estilo e se lembra de um compromisso, afinal minha agenda é cheia e não há tempo para tolices como essa de entrar num quarto qualquer com uma mulher qualquer, ela nem ao menos é loira, Abelardo, o que você faz aqui, saia agora, mas continuo quase deitado, dois dólares e uma cabeça, "dois dólares", pois tome quatro, tenho pressa, visto o casaco e o frio da escada me espera junto com o vazio, a bronca e o machado.
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