domingo, 21 de junho de 2015

andar

as mesmas mãos
iconoclastas
competem em reconstruir,
colecionando cacos, 
os mesmos arquétipos
que conjuntamente quebraram.

as mesmas vozes
revolucionárias
removem o realizado
e rugem, em harmonia
pelo retorno de tudo
que um dia derrubaram.

os mesmos olhos
esperançosos
cansaram da caçada,
do que há de se transformar.
e hoje apenas se cegam
frente à (falta de) luz que os venda. 

não se canse,
sim,
não se canse. 

a trilha ainda é árdua, 
e havemos de cair, cair, e cair
e talvez perder a voz, as mãos, os olhos.
levaremos surras e arrancarão nosso couro.
talvez não nos sobre nada.

mas andaremos. 

sem dúvida,
andaremos. 

sábado, 3 de maio de 2014

!

Três folhas!
Três folhas, singelas, pousaram na cabeleira longa e ruiva. Com pernas finas, a cabeleira corria sob a "komorebi", a luz do sol que as folhas filtravam.
Um riso a cada tropeço. Duas mãos que, unidas, lentamente se afastavam.

Dois dedos!
Dois dedos, que mal se encostavam, era só o que os unia. Cada vez menos risos, cada vez mais tropeços. Era agora ofegante por correr, e a cabeleira seguia com suas três folhas.
Lembrava, mas a luz do sol ofuscava sua memória.

Um!
Um, só. "O olhar procura, antecipa a dor no coração - vermelho". A brisa do outono não tinha mais luz.
Aki ga tatsu. (começou a soprar a brisa do outono.)

quarta-feira, 23 de abril de 2014

terça-feira, 22 de abril de 2014

Mocinha

"Mas ora, claro que és bonita!" - fora o início da quebra de seus estigmas.
O mundo ainda era novo e todos os passos tinham cheiro de flor. Aos olhos da criança, nada parece errado. Faltam-lhe os olhos treinados para enxergar mais longe e mais a fundo. Falta-lhe a retina adaptada à pouca luz do coração, sempre nebuloso.
As pedras são muitas, como sempre o são, mas a montanha é mais íngreme do que o corpo suporta. Pisa em falso. Cai.
Do sopé, a distância que separa dos que ficaram se torna alimento, luz e força. Crescia a cada cicatriz, até que os novos olhos encontravam de frente as mesmas pedras.

Não seguiu pela mesma trilha, e os novos passos viam outras flores. "Mas ora, claro que és bonita!" - não mais a surpreendeu. Com mais firmeza, tinha (talvez) um pouco de voz ativa em si. 

Retransformou-se.

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Fim

Pés nus
A areia grossa e o concreto feriam seu couro
A jornada chegava ao fim, e o fôlego era sugado de dentro

Avistar o fim do túnel e a entrada dos próximos, cada vez mais túneis e cada vez mais abertos.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Novo e Não

Bicho quer sair da toca
pra ver se tinha coisa boa lá fora
coisa boa pra comer,
pros olhos, pra saudade.
Bicho segue o som que o atrai,
bicho cava a trilha de volta ao sol.
Suarento, avista uma nesga de luz
no meio do que crê ser torrões de terra,
se agarra àquele fio como se fosse o último
(e cada filho teu como se fosse o último...).

Encontra, do lado de fora, um caco.
Caco de vidro, de ferro, reflete seu rosto e o sangue em suas mãos
e os torrões de terra nada mais eram que
cacos
restos
pon
ti
a
gu
dos, perfurando seus dedos, ferindo seus olhos,
jorrando o sangue de si, sangue de séculos.



segunda-feira, 19 de novembro de 2012

o cair da ficha
desata o nó que faltava pra explosão da bomba,
ali no cantinho do fundo

e mil facas perfurando sua glote,
um pé sobre as costelas e o esmagamento de uma talvez bigorna

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

contido

cabelos presos - soltam-se
os olhos voam
corre descalça pela grama nua, descarrega o que é preciso,

cai sem rumo e rola pelo trigo em flor, a lua brilha - longe

paz.

quinta-feira, 1 de novembro de 2012


Na casca era só serenidade. Inspira, expira. Enche o pulmão de paciência, ouvidos não mais escutam, boca não mais fala, olhos não mais vêem.
Outras histórias, outras pessoas, outros mundos já preenchiam todo o espaço disponível. Lotado, overbooking de alvéolos, átrios e ventrículos.
E ainda queriam forçar mais o êmbolo. Comprimir aquilo que já tinha atingido o máximo - estoura, a membrana é frágil e não resiste.


segunda-feira, 22 de outubro de 2012

outro, eu.

medo.
não medo, receio. não quero que os novos ventos tragam distância.
folheando os velhos ditos, surge sempre uma pontada, aquele incômodo que insiste em não dar lugar para um respiro. um só.

é cruel: não permite a vida. a oportunidade escapa por entre os vãos dos dedos. dedo fura-bolo, estraga a festa antes das velas apagarem.

monossilabismo.
o outro.
eu.

no fim, nada mudou -
ciclo.