O celular emitiu um bipe. Mais uma daquelas mensagens de propaganda, "envie GOL para 48600 e receba notícias da copa". A copa já passou. A rodovia vazia chama o sol no horizonte, uma saída pra uma estradinha que poderia ser de terra. Sem poeira, sem buracos, paralelepípedos acompanhando. Quase em branco e preto, aquela poderia ser uma paisagem de quase 1960, os Fuscas tinindo e um ambiente certo. Correto, estável. Vira, esquerda, direita, a casinha pitoresca no fim da estrada já se destaca, atrás o meio abandonado. Olha onde ele veio se meter. Quando recebeu a ligação, coisa de uma hora atrás, esperava estar chegando agora em um prédio qualquer no centro.
Apavora-se com o entorno da casa. Poderia estar MESMO em 1960. Reduz a velocidade, faz a curva e deixa o carro engatado. Sai cauteloso, sobe os três ou quatro degraus e toca a campainha. Uma senhora abre a porta e revela uma cena típica de uma família inglesa, o chá das cinco. Diz a que veio, não mora nenhum Peter aqui. Mil desculpas, devo ter me confundido. Vira as costas e tropeça, desorientado, até que a verdade o atinge pelas costas.
Volta e a abraça.
segunda-feira, 23 de maio de 2011
terça-feira, 3 de maio de 2011
fanteano
Vou subindo a escada, não, Abelardo, você não gasta com essas coisas, não pode, "vem cá, quer ver como se divertir essa noite?", quanto custa, vale um sapato e um saco de laranjas na venda do japonês, a escada acaba, um corredor, não, ainda dá pra voltar atrás, mas você não quer, Abelardo, ah, bem que você queria aproveitar, dois dólares e mais nada, são tudo, o dinheiro da mãe, mas sempre há dinheiro e sempre se pode pedir mais, o japonês pode dar um desconto na próxima, a avó pode mandar mais dinheiro, sempre, aquele meu pai cafajeste bem que podia aparecer, ou um qualquer, verei meu nome na capa das revistas e jornais e todos falarão de mim, ganharei dinheiro, sim dinheiro pra gastar com essas coisa, oh, não, a porta, "entre, se acomode", um quarto comum de motel, o clique da chave atrás de mim, não, Abelardo, arrombe a porta e saia correndo, volte para a sã consciência, seja corajoso, deito na cama, ela sobre mim e tua boca encosta meu pescoço, minha mão sobre teu cabelo e pensamentos, volte, Abelardo, sua mãe, Abelardo, imagine ela quando souber, você está em maus lençóis, me atiro para o outro lado da cama e me sento, me levanto como alguém que se levante em grande estilo e se lembra de um compromisso, afinal minha agenda é cheia e não há tempo para tolices como essa de entrar num quarto qualquer com uma mulher qualquer, ela nem ao menos é loira, Abelardo, o que você faz aqui, saia agora, mas continuo quase deitado, dois dólares e uma cabeça, "dois dólares", pois tome quatro, tenho pressa, visto o casaco e o frio da escada me espera junto com o vazio, a bronca e o machado.
quarta-feira, 27 de abril de 2011
Precaução
A música soa o vazio de seus olhos, o olhar soa no vazio de sua música. Não quer que retome do silêncio, jamais. Eterniza um momento de muitos, fecha as janelas para o frio lá fora. E espera, do fundo de seu sentimento, que isso baste.
Mas não há cobertores, e neva.
Mas não há cobertores, e neva.
"Conspiração..."
Abriu o e-mail num gesto mecânico.
"O que eu sinto, foi o que perguntastes...Pois creio que essa resposta ainda não foi encontrada, nunca foi e nem será. Se apenas nós sentimos o que queima essas nossas entranhas, como podem os outros procurá-la? Sobra a gente.
E a gente muda, ora sente, ora não. Quando sente, nos arrebata de forma tão intensa que ficamos mudos, surdos e cegos do que virá, do mundo. Agora, nosso mundo está ali, à nossa frente e o resto não existe.
Esse é meu mundo, volta e meia. Os outros são meros figurantes. Nesse mundo, o mero tropeço (em todos os seus sentidos intrínsecos) nos mata. Do quê? Vergonha, medo, raiva, lembrança, tudo ou nada disso. Nese mundo, há a possibilidade.
E qualquer que seja a sombra de uma tesoura vindo cortar esse fio de não-tempo, meus olhos se tornam vermelhos e minhas mãos querem agir sozinhas. E se esse mundo é unilateral, mesmo um olhar provoca a barbárie, um mero encostar de costas leva à depressão.
E faz parecer de propósito. E piora, e piora mais.
Quando essa sombra se afasta ou nem chega a cobrir a luz do sol, parece.
Aí tu me pergunta: mas parece o quê?
E eu te respondo: a felicidade."
Cegou, emudeceu, ensurdeceu.
"O que eu sinto, foi o que perguntastes...Pois creio que essa resposta ainda não foi encontrada, nunca foi e nem será. Se apenas nós sentimos o que queima essas nossas entranhas, como podem os outros procurá-la? Sobra a gente.
E a gente muda, ora sente, ora não. Quando sente, nos arrebata de forma tão intensa que ficamos mudos, surdos e cegos do que virá, do mundo. Agora, nosso mundo está ali, à nossa frente e o resto não existe.
Esse é meu mundo, volta e meia. Os outros são meros figurantes. Nesse mundo, o mero tropeço (em todos os seus sentidos intrínsecos) nos mata. Do quê? Vergonha, medo, raiva, lembrança, tudo ou nada disso. Nese mundo, há a possibilidade.
E qualquer que seja a sombra de uma tesoura vindo cortar esse fio de não-tempo, meus olhos se tornam vermelhos e minhas mãos querem agir sozinhas. E se esse mundo é unilateral, mesmo um olhar provoca a barbárie, um mero encostar de costas leva à depressão.
E faz parecer de propósito. E piora, e piora mais.
Quando essa sombra se afasta ou nem chega a cobrir a luz do sol, parece.
Aí tu me pergunta: mas parece o quê?
E eu te respondo: a felicidade."
Cegou, emudeceu, ensurdeceu.
segunda-feira, 25 de abril de 2011
Lado
O vento forte balançava as cortinas em pulsos, como uma mulher gorda num balanço. Vai, vem, volta. A música soava alta e initerruptamente, da caixa de som. O telefone apitava de dez em dez segundos, denunciando recados na secretária eletrônica.
O sofá, torto na parede, abrigava um corpo.
Sigo mais um pouco, uma porta à esquerda leva à cozinha, em frente um corredor, a lâmpada no lustre vistoso, queimada. O cheiro quente de bolor e o acre de cachimbos meio fumados. Aquela fresta de luz no chão, e a poeira voante.
A estante ao meu lado embolora enquanto não há alguém para cuidá-la.
Estendo a mão na frente de meu nariz e a ponta de minhas unhas encosta a madeira podre. Rangido e luz. O vidro quebrado da janela deixava passar os pássaros. Aos montes. Os lençóis rotos e sujos jaziam amarfanhados sobre o colchão, fundo. Nada além. Ao lado, um baú semi-aberto guardava um bilhete e pó.
"Não me espere pro jantar" - era o que dizia. Indiferente.
Nenhuma faca, nenhuma corda, nenhuma gota de sangue manchava o assoalho. À direita, um banheiro, privada quebrada e suja do vômito. O espelho lotado de adesivos. A lâmpada pendia sozinha no teto, vidro no chão.
Dou meia volta e a cozinha me espera. A porta do armário, tímida, entreaberta. As formigas saciaram-se do açúcar, e não havia mais. Nem um, nem outro. Um resto de livro abandonado na mesa, manchado de café com leite e saudade. A xícara, posta sucintamente sobre o pires.
Volto à sala e o piano está aberto, como sempre. O banco quebrado não sustenta mais o peso de seu pianista, e de nenhum outro. O corpo abandonado já não me amedronta, me desperta curiosidade. Esse corpo levanta, os olhos brancos tontos, e me esfaqueia pelas costas.
O sofá, torto na parede, abrigava um corpo.
Sigo mais um pouco, uma porta à esquerda leva à cozinha, em frente um corredor, a lâmpada no lustre vistoso, queimada. O cheiro quente de bolor e o acre de cachimbos meio fumados. Aquela fresta de luz no chão, e a poeira voante.
A estante ao meu lado embolora enquanto não há alguém para cuidá-la.
Estendo a mão na frente de meu nariz e a ponta de minhas unhas encosta a madeira podre. Rangido e luz. O vidro quebrado da janela deixava passar os pássaros. Aos montes. Os lençóis rotos e sujos jaziam amarfanhados sobre o colchão, fundo. Nada além. Ao lado, um baú semi-aberto guardava um bilhete e pó.
"Não me espere pro jantar" - era o que dizia. Indiferente.
Nenhuma faca, nenhuma corda, nenhuma gota de sangue manchava o assoalho. À direita, um banheiro, privada quebrada e suja do vômito. O espelho lotado de adesivos. A lâmpada pendia sozinha no teto, vidro no chão.
Dou meia volta e a cozinha me espera. A porta do armário, tímida, entreaberta. As formigas saciaram-se do açúcar, e não havia mais. Nem um, nem outro. Um resto de livro abandonado na mesa, manchado de café com leite e saudade. A xícara, posta sucintamente sobre o pires.
Volto à sala e o piano está aberto, como sempre. O banco quebrado não sustenta mais o peso de seu pianista, e de nenhum outro. O corpo abandonado já não me amedronta, me desperta curiosidade. Esse corpo levanta, os olhos brancos tontos, e me esfaqueia pelas costas.
a gente
A gente vai sentar ali, junto. Pegaremos o papel e a caneta e criaremos um mundo só nosso.
E nesse mundo amor não faltará, para nenhum de seus viventes. Nesse mundo, as garotinha de sete anos não desejarão uma Barbie princesa, elas irão atrás daquela sensação boa que sobre pelo pescoço de vez em sempre. Nesse mundo, as estrelas nos contarão sua história em forma de poesia, e nos ninarão com sua doce música.
Nesse mundo, nossos olhos estarão jamais distarão, nossos braços nos envolverão mútua e reciprocamente, e nossas mentes não terão nada além com que se preocupar. Nesse mundo, a fome não importa, a sede não importa, o dinheiro não importa. Nada disso existe no nosso mundo. Ele já é pleno.
Nesse mudo, a vida tem graça. O sorriso da velhinha comprando tomates na feira contagia todo um continente. A felicidade não é eterna e permanente, mas se renova.
No nosso mundo o tempo passa, mas dura.
No nosso mundo moramos em um coração. De favor.
Ali, a gente senta junto. Pegamos o papel e a caneta e recriamos um mundo já nosso. Porque a única força capaz de criar é o amor.
E nesse mundo amor não faltará, para nenhum de seus viventes. Nesse mundo, as garotinha de sete anos não desejarão uma Barbie princesa, elas irão atrás daquela sensação boa que sobre pelo pescoço de vez em sempre. Nesse mundo, as estrelas nos contarão sua história em forma de poesia, e nos ninarão com sua doce música.
Nesse mundo, nossos olhos estarão jamais distarão, nossos braços nos envolverão mútua e reciprocamente, e nossas mentes não terão nada além com que se preocupar. Nesse mundo, a fome não importa, a sede não importa, o dinheiro não importa. Nada disso existe no nosso mundo. Ele já é pleno.
Nesse mudo, a vida tem graça. O sorriso da velhinha comprando tomates na feira contagia todo um continente. A felicidade não é eterna e permanente, mas se renova.
No nosso mundo o tempo passa, mas dura.
No nosso mundo moramos em um coração. De favor.
Ali, a gente senta junto. Pegamos o papel e a caneta e recriamos um mundo já nosso. Porque a única força capaz de criar é o amor.
quinta-feira, 21 de abril de 2011
Dezoitoras perto do meio-dia
Você pega três chocolates na geladeira e senta em frente ao computador. Ninguém para falar contigo, nenhuma idéia vindo à sua mente crua. Você então levanta e sai andando pela casa, imaginando o que poderia acontecer, o que poderia ter acontecido e o que aconteceu. Se decepciona com o resultado e abre a janela da sala. Senta novamente, lê a mensagem que recebeu, continua cabisbaixo. Levanta as sobrancelhas e crispa os lábios, o olho direito arregalado e o outro dormindo. Coloca o celular em cima da folha de papel à sua frente, que insiste em voar para longe. O vento atravessa a janela e empurra seu cabelo para os olhos. Você levanta a mão para ajeitá-lo e não resiste em passá-la suavemente pela lateral do rosto, imaginando o extinto. Se sente idiota e pensa em seu eu estúpido. Você escreve, e não é isso o almejado. Facas fatiam seu estômago e adentram seu âmago. O livro sobre a estante continua lá, e nao será por milagre que ele lhe dará uma idéia. É de dia, e as luzes não estão acesas, mas o sol brilha no poente. O céu alaranjado não te lembra nada, sua consciência se esvaiu. Uma respiração mais profunda e o pulso acelerado, de repente, te lembram do amanhã. Você espera uma ligação, mas não sabe quando ela virá. Até lá, devemos encontrar uma distração, algo que acomode. A música que você ouve lhe traz um cheiro familiar de longe. Você procura a perfeição, mas alcança um pouco além do plágio. Você quer acelerar o tempo, comandar as chuvas e os corações, e o melhor que criou até hoje ninguém viu. Você é o meio-termo, o equilíbrio, e não sabe.
quarta-feira, 20 de abril de 2011
Olhares metonímicos
"Oi, sou eu de novo. Você ainda não respondeu.
Tudo bem. As coisas andam corridas, né? Não há tempo nem para acender as luzes. O tempo domina você, mas você não domina o tempo.
Tem ouvido muita música? O rádio estava ligado. Estava tocando aquela música que eu te contei mês passado, 'Tribal Gathering', The Byrds. É bem boa, devia procurar.
A luz da sua rua queimou. Não se preocupe, já tomei as providências. Mas que estava escuro, estava.
Aquela velhinha que mora na rua da frente continua tocando saxofone. Dá pra ouvir daqui.
Hoje, quando tu me viu, não pude responder direito. Estava no meio de algo importante, não me lembro bem o quê. Pode ser que tenha sido uma ligação, ou uma futura. Mas ganhei um presente em pensamento, e você nem percebeu que o deu, ou foi de propósito?
Um presente em pensamento é aquela sensação boa que nos enche de confiança e ar. Muito ar. Empinamos o nariz, esticamos a coluna e seguimos por aí, felizes. É a esperança de um tempo não perdido, é outra palavra fedida jogada no lixo. Um presente em pensamento não se vê, não se mostra, não se empresta. Não vale nada, e vale mais que todo o dinheiro do mundo. Um presente em pensamento não é comprável.
Um presente em pensamento se dá sem consciência, e se retribui com um presente em sentimento.
Um presente em sentimento não se pode retribuir. Se dá outro. E então se troca, se mistura e vira um só. Exponencialmente maior.
Você fatiou esse sentimento em dois, espremeu até a última gota de sumo, acrescentou uma pitada de olhar, colocou numa jarra e esqueceu em cima da mesa.
A despensa estava vazia, e a louça, suja.
Não tinha mais guardanapo."
Tudo bem. As coisas andam corridas, né? Não há tempo nem para acender as luzes. O tempo domina você, mas você não domina o tempo.
Tem ouvido muita música? O rádio estava ligado. Estava tocando aquela música que eu te contei mês passado, 'Tribal Gathering', The Byrds. É bem boa, devia procurar.
A luz da sua rua queimou. Não se preocupe, já tomei as providências. Mas que estava escuro, estava.
Aquela velhinha que mora na rua da frente continua tocando saxofone. Dá pra ouvir daqui.
Hoje, quando tu me viu, não pude responder direito. Estava no meio de algo importante, não me lembro bem o quê. Pode ser que tenha sido uma ligação, ou uma futura. Mas ganhei um presente em pensamento, e você nem percebeu que o deu, ou foi de propósito?
Um presente em pensamento é aquela sensação boa que nos enche de confiança e ar. Muito ar. Empinamos o nariz, esticamos a coluna e seguimos por aí, felizes. É a esperança de um tempo não perdido, é outra palavra fedida jogada no lixo. Um presente em pensamento não se vê, não se mostra, não se empresta. Não vale nada, e vale mais que todo o dinheiro do mundo. Um presente em pensamento não é comprável.
Um presente em pensamento se dá sem consciência, e se retribui com um presente em sentimento.
Um presente em sentimento não se pode retribuir. Se dá outro. E então se troca, se mistura e vira um só. Exponencialmente maior.
Você fatiou esse sentimento em dois, espremeu até a última gota de sumo, acrescentou uma pitada de olhar, colocou numa jarra e esqueceu em cima da mesa.
A despensa estava vazia, e a louça, suja.
Não tinha mais guardanapo."
terça-feira, 19 de abril de 2011
Anísio e seus amigos
Era feliz naquele mundo, daquele jeito.
Não precisava de mais nada.
A vida era perfeita,
o sol era perfeito,
a rua sem buracos,
o joelho sem cicatrizes.
Todas as músicas que tocavam no rádio
eram suas preferidas,
todas as meninas que vinham falar com ele
eram as que amava.
Todos os seus amigos eram felizes,
e tudo fora feito em sua homenagem.
Uma dia escreveriam na sua lápide:
"aqui jaz Anísio, o perfeito".
Era o cenário da monotonia perfeita.
O cenário perfeito para a monotonia.
E ai de uma mudança se ela atrevesse
a chegar perto, mesmo que para melhor.
Os livros na biblioteca da cidade eram todos biografias.
Contistas e poetas eram perseguidos,
torturados e convertidos.
Jovens revolucionários
iam parar no calabouço.
As lâmpadas de iluminação pública
jamais queimavam,
e nunca havia engarrafamentos.
A praia estava sempre limpa
e convidativa.
A loja de brinquedos,
sempre cheia de crianças mimadas
e felizes. Os pais, sempre felizes.
O prefeito com nada tinha que se preocupar.
A cidade seguia feliz.
Anísio seguia feliz,
a face estampada no sorriso.
Não ouvia mais,
não via mais,
não falava,
não tocava,
seu nariz já não funcionava.
Não precisava de nada disso,
era perfeito e feliz.
Nas escolas do mundo inteiro,
as crianças aprenderiam seu nome,
como aquele que era feliz
e não precisava de nada.
Mas, por dentro,
Anísio tinha raiva de si mesmo.
Tinha instintos contidos.
A máscara que vestia dia e noite
já não lhe servia direito.
Encontrava as pessoas na rua
e elas lhe davam bom-dia.
"Mas eu não conheço essas pessoas!"
Olá, bom dia!
Se tornou uma verdade completíssima.
Seguia hesitante, aquele Anísio.
Não gostava nada de gente reprimida.
A moral da história era sempre
"liberte-se do que lhe pesa
e a felicidade é garantida".
Mas sempre sobra um restinho ali,
no canto.
Anísio estava pleno de restinhos.
Sua vida não era mais tão perfeita.
Mas só ele via, já que o mundo,
no fundo, não era dele.
Só acreditavam.
O acreditar, para Anísio, era a base.
É assim que se comandam nações,
é assim que se controlam mentes.
Só ele sabia que todos ali eram livres.
Mas estavam tomados pelo desejo
de seguir igual, perfeito,
porque "o perfeito é e era bom
e assim será, para sempre".
Anísio seguia indignado.
Mas ele mesmo era perfeito!
Deveria então ser feliz e bom!
Mas era, não era?
"De quem foi essa idéia estúpida
de plantar tais pensamentos em minha cabeça? "
Anísio seguia desacreditado.
Continuava com suas mesmas músicas preferidas,
com suas mesmas garotas amadas,
com seus amigos felizes,
com o joelho limpo e sem cicatrizes,
com o sol perfeito e sem nuvens.
Mas feliz?
Continuava feliz... Se é que já era feliz?
A cidade seguia feliz, e Anísio seguia raivoso.
Comprou uma passagem para o exterior
e se hospedou num albergue de esquina.
Acordou de manhã sem criados
que arrumassem sua cama,
sem o rádio-relógio
despertando na mesma hora
todos os dias.
Levantou sem um armário
cheio de roupas quentes,
Comeu sem seus amigos
à sua volta,
rodou pelas ruas de paralelepípedos
sozinho e com chuva.
Anísio não seguia, andava.
Mas uma hora sentiu falta
de toda aquela perfeição
do seu mundo monótono,
e voltou.
Abandonou a chance.
Anísio seguia no fundo, no chão, e igual.
Não precisava de mais nada.
A vida era perfeita,
o sol era perfeito,
a rua sem buracos,
o joelho sem cicatrizes.
Todas as músicas que tocavam no rádio
eram suas preferidas,
todas as meninas que vinham falar com ele
eram as que amava.
Todos os seus amigos eram felizes,
e tudo fora feito em sua homenagem.
Uma dia escreveriam na sua lápide:
"aqui jaz Anísio, o perfeito".
Era o cenário da monotonia perfeita.
O cenário perfeito para a monotonia.
E ai de uma mudança se ela atrevesse
a chegar perto, mesmo que para melhor.
Os livros na biblioteca da cidade eram todos biografias.
Contistas e poetas eram perseguidos,
torturados e convertidos.
Jovens revolucionários
iam parar no calabouço.
As lâmpadas de iluminação pública
jamais queimavam,
e nunca havia engarrafamentos.
A praia estava sempre limpa
e convidativa.
A loja de brinquedos,
sempre cheia de crianças mimadas
e felizes. Os pais, sempre felizes.
O prefeito com nada tinha que se preocupar.
A cidade seguia feliz.
Anísio seguia feliz,
a face estampada no sorriso.
Não ouvia mais,
não via mais,
não falava,
não tocava,
seu nariz já não funcionava.
Não precisava de nada disso,
era perfeito e feliz.
Nas escolas do mundo inteiro,
as crianças aprenderiam seu nome,
como aquele que era feliz
e não precisava de nada.
Mas, por dentro,
Anísio tinha raiva de si mesmo.
Tinha instintos contidos.
A máscara que vestia dia e noite
já não lhe servia direito.
Encontrava as pessoas na rua
e elas lhe davam bom-dia.
"Mas eu não conheço essas pessoas!"
Olá, bom dia!
Se tornou uma verdade completíssima.
Seguia hesitante, aquele Anísio.
Não gostava nada de gente reprimida.
A moral da história era sempre
"liberte-se do que lhe pesa
e a felicidade é garantida".
Mas sempre sobra um restinho ali,
no canto.
Anísio estava pleno de restinhos.
Sua vida não era mais tão perfeita.
Mas só ele via, já que o mundo,
no fundo, não era dele.
Só acreditavam.
O acreditar, para Anísio, era a base.
É assim que se comandam nações,
é assim que se controlam mentes.
Só ele sabia que todos ali eram livres.
Mas estavam tomados pelo desejo
de seguir igual, perfeito,
porque "o perfeito é e era bom
e assim será, para sempre".
Anísio seguia indignado.
Mas ele mesmo era perfeito!
Deveria então ser feliz e bom!
Mas era, não era?
"De quem foi essa idéia estúpida
de plantar tais pensamentos em minha cabeça? "
Anísio seguia desacreditado.
Continuava com suas mesmas músicas preferidas,
com suas mesmas garotas amadas,
com seus amigos felizes,
com o joelho limpo e sem cicatrizes,
com o sol perfeito e sem nuvens.
Mas feliz?
Continuava feliz... Se é que já era feliz?
A cidade seguia feliz, e Anísio seguia raivoso.
Comprou uma passagem para o exterior
e se hospedou num albergue de esquina.
Acordou de manhã sem criados
que arrumassem sua cama,
sem o rádio-relógio
despertando na mesma hora
todos os dias.
Levantou sem um armário
cheio de roupas quentes,
Comeu sem seus amigos
à sua volta,
rodou pelas ruas de paralelepípedos
sozinho e com chuva.
Anísio não seguia, andava.
Mas uma hora sentiu falta
de toda aquela perfeição
do seu mundo monótono,
e voltou.
Abandonou a chance.
Anísio seguia no fundo, no chão, e igual.
Acabou no papel de pão.
"Não gostaria de deixar esse bilhete, assim tão rápido. O guardanapo até que é grande. Se acabar, a gente pega outro, depois o papel de pão, depois o folheto que veio na pizza, depois uns post-its largados do lado do telefone.
Acho que lhe devo umas explicações. Não quero me alongar, preciso ir embora. Já é tarde, e nada de você aparecer. Aquele miojo já deve ter esfriado faz tempo quando você chegar. Talvez a vela já tenha derretido inteira, ou a energia já tenha voltado. Joguei a chave pela janela, olha lá no tapete.
Não sei porque te liguei àquela hora da noite. Não era importante. Talvez, na hora, fosse. Mas me impedi de lembrar. As ruas estavam escuras, não se ouvia um pio sequer, uma buzina ou um carro derrapando ao longe. Uma bicicleta jogada num canto da calçada, a lua espremida no canto de um prédio, e um tênis jogado nos fios elétricos. Talvez eu estivesse com medo.
Também não sei porque fui atrás de você no dia seguinte, com aquele bafo característico de quem passou a noite sem uma escova de dentes. Assustei-te? Pois, que eu me lembre, você fingiu que não me ouvia, não via, não olhava. Asco, talvez. Os olhos fundos, depois da noite em claro, o nariz quase adunco como sempre, os lábios inchados de uma gripe promissora. Talvez você também estivesse lá, naquela rua.
Quando a gente quer, a memória funciona como uma borracha dela mesma.
A pinga na esquina demorou mais que todo o tempo do meu mundo, e você ainda não voltou. Não posso dizer que estou sentindo saudades. Elas surgem ou antes, ou depois. Nunca na hora. É como o cansaço do cortador de cana. Na hora, só o que lhe vem na cabeça é 'mais um pé, mais um'. Chega em casa, e morre na cama. Dia seguinte, levanta-se sem um copo de café para mais um dia de briga. Amanhã, talvez.
Não posso lhe pedir para me esperar na frente de casa, porque eu não vou aparecer. Não posso lhe pedir para me ligar, não vou nem olhar as ligações perdidas. Porquê? Acho que vou tentar a indiferença.
Mas posso lhe garantir que, daqui uma ou duas semanas, eu vou estar lá de novo. Voltarei, e você não estará em casa. Seu miojo estará pronto, e nem trabalho eu terei. Deixarei outro bilhete como este, e quem sabe você responda."
Acho que lhe devo umas explicações. Não quero me alongar, preciso ir embora. Já é tarde, e nada de você aparecer. Aquele miojo já deve ter esfriado faz tempo quando você chegar. Talvez a vela já tenha derretido inteira, ou a energia já tenha voltado. Joguei a chave pela janela, olha lá no tapete.
Não sei porque te liguei àquela hora da noite. Não era importante. Talvez, na hora, fosse. Mas me impedi de lembrar. As ruas estavam escuras, não se ouvia um pio sequer, uma buzina ou um carro derrapando ao longe. Uma bicicleta jogada num canto da calçada, a lua espremida no canto de um prédio, e um tênis jogado nos fios elétricos. Talvez eu estivesse com medo.
Também não sei porque fui atrás de você no dia seguinte, com aquele bafo característico de quem passou a noite sem uma escova de dentes. Assustei-te? Pois, que eu me lembre, você fingiu que não me ouvia, não via, não olhava. Asco, talvez. Os olhos fundos, depois da noite em claro, o nariz quase adunco como sempre, os lábios inchados de uma gripe promissora. Talvez você também estivesse lá, naquela rua.
Quando a gente quer, a memória funciona como uma borracha dela mesma.
A pinga na esquina demorou mais que todo o tempo do meu mundo, e você ainda não voltou. Não posso dizer que estou sentindo saudades. Elas surgem ou antes, ou depois. Nunca na hora. É como o cansaço do cortador de cana. Na hora, só o que lhe vem na cabeça é 'mais um pé, mais um'. Chega em casa, e morre na cama. Dia seguinte, levanta-se sem um copo de café para mais um dia de briga. Amanhã, talvez.
Não posso lhe pedir para me esperar na frente de casa, porque eu não vou aparecer. Não posso lhe pedir para me ligar, não vou nem olhar as ligações perdidas. Porquê? Acho que vou tentar a indiferença.
Mas posso lhe garantir que, daqui uma ou duas semanas, eu vou estar lá de novo. Voltarei, e você não estará em casa. Seu miojo estará pronto, e nem trabalho eu terei. Deixarei outro bilhete como este, e quem sabe você responda."
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