sábado, 15 de outubro de 2016

Dor epigástrica difusa, taquipneia e miose


O virar de cada sol anda muito perguntas e pouco respostas. Levantar é saber de mais uma manhã sem entender como existe essa multiplicidade de eus, sem saber calar um, ouvir outro. Há raiva, há briga. De onde vem tanta raiva?

Levantar é não saber se estarei ou não, se o andar é meu ou piloto automático. Se o tempo corre sozinho ou comigo. Verei, de olhos abertos, o próximo pôr do sol?

A razão da saudade às vezes não faz sentido. Seria a ausência de essência meus eyes wide shut ou uma essencial - hipertensa - ausência?

Minhas pupilas se contraem de frio e luz, em formato de ?

segunda-feira, 8 de agosto de 2016

liberta

Não sei quando o amanhã virá, se virá. 
Mas ouço teu canto no meu, levo teu remo no meu, e cada canto cada remo cada tosse cada voz se une em linha e agulha, e remenda-se um rasgo que permanecera aberto.
O vento deixou de atirar agulhas contra meu dorso. O sol queima em cada foco auscultatório em hemitórax esquerdo. 
Também o sol brilha, longe. A lua ainda se esconde.
Não há paz; tampouco há guerra. 
Há sol. 

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

um dia

A vontade de tudo fugiu.
Sabe lá pra onde,
como, quando.
Não me peça uma manchete jornalística;
não me peça nada.

Nada tenho a te oferecer.
Quem sabe um café,
um dia no sofá, uma preguiça,
um cafuné.
Mas é só.
O resto a onda levou,
e o areal, comigo, aguarda Yemanjá
trazer de volta o tudo renovado.

Menina,
um dia tu encontras teu rumo,
e neste dia conversamos.
Um dia.
Pode não ser um dia de sol.
Pode ser um furacão de rumos
en
  cru
zi
  lha
da


luz

Miríade de noites mal dormidas, as últimas luas não têm permitido tempo.
As mesmas luas torturam e afagam. Drenam nossa força, preenchem-nos de adagas, uma espécie menos biológica de dispneia-dor-ventilatório-dependente constante; e nos abraçam, cobrem-nos de flores e restauram o calor de nossos pés na neve.

Não me bastam as luas. O sol é preciso.

domingo, 21 de junho de 2015

andar

as mesmas mãos
iconoclastas
competem em reconstruir,
colecionando cacos, 
os mesmos arquétipos
que conjuntamente quebraram.

as mesmas vozes
revolucionárias
removem o realizado
e rugem, em harmonia
pelo retorno de tudo
que um dia derrubaram.

os mesmos olhos
esperançosos
cansaram da caçada,
do que há de se transformar.
e hoje apenas se cegam
frente à (falta de) luz que os venda. 

não se canse,
sim,
não se canse. 

a trilha ainda é árdua, 
e havemos de cair, cair, e cair
e talvez perder a voz, as mãos, os olhos.
levaremos surras e arrancarão nosso couro.
talvez não nos sobre nada.

mas andaremos. 

sem dúvida,
andaremos. 

sábado, 3 de maio de 2014

!

Três folhas!
Três folhas, singelas, pousaram na cabeleira longa e ruiva. Com pernas finas, a cabeleira corria sob a "komorebi", a luz do sol que as folhas filtravam.
Um riso a cada tropeço. Duas mãos que, unidas, lentamente se afastavam.

Dois dedos!
Dois dedos, que mal se encostavam, era só o que os unia. Cada vez menos risos, cada vez mais tropeços. Era agora ofegante por correr, e a cabeleira seguia com suas três folhas.
Lembrava, mas a luz do sol ofuscava sua memória.

Um!
Um, só. "O olhar procura, antecipa a dor no coração - vermelho". A brisa do outono não tinha mais luz.
Aki ga tatsu. (começou a soprar a brisa do outono.)

quarta-feira, 23 de abril de 2014

terça-feira, 22 de abril de 2014

Mocinha

"Mas ora, claro que és bonita!" - fora o início da quebra de seus estigmas.
O mundo ainda era novo e todos os passos tinham cheiro de flor. Aos olhos da criança, nada parece errado. Faltam-lhe os olhos treinados para enxergar mais longe e mais a fundo. Falta-lhe a retina adaptada à pouca luz do coração, sempre nebuloso.
As pedras são muitas, como sempre o são, mas a montanha é mais íngreme do que o corpo suporta. Pisa em falso. Cai.
Do sopé, a distância que separa dos que ficaram se torna alimento, luz e força. Crescia a cada cicatriz, até que os novos olhos encontravam de frente as mesmas pedras.

Não seguiu pela mesma trilha, e os novos passos viam outras flores. "Mas ora, claro que és bonita!" - não mais a surpreendeu. Com mais firmeza, tinha (talvez) um pouco de voz ativa em si. 

Retransformou-se.

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Fim

Pés nus
A areia grossa e o concreto feriam seu couro
A jornada chegava ao fim, e o fôlego era sugado de dentro

Avistar o fim do túnel e a entrada dos próximos, cada vez mais túneis e cada vez mais abertos.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Novo e Não

Bicho quer sair da toca
pra ver se tinha coisa boa lá fora
coisa boa pra comer,
pros olhos, pra saudade.
Bicho segue o som que o atrai,
bicho cava a trilha de volta ao sol.
Suarento, avista uma nesga de luz
no meio do que crê ser torrões de terra,
se agarra àquele fio como se fosse o último
(e cada filho teu como se fosse o último...).

Encontra, do lado de fora, um caco.
Caco de vidro, de ferro, reflete seu rosto e o sangue em suas mãos
e os torrões de terra nada mais eram que
cacos
restos
pon
ti
a
gu
dos, perfurando seus dedos, ferindo seus olhos,
jorrando o sangue de si, sangue de séculos.